quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Maçã Verde - parte 3

SUCO


Um livro qualquer de páginas amareladas na mão esquerda. O mais vagabundo dos vinhos na mão direita. E um metro de pernas abraçando-lhe a cintura. 
Numa banheira lavam toda frustração de um passado que não os pertencia. Ele se recostava em um peito que não lhe pertencia, mas era seu por poucos segundos! 
Mais negros que de costume, seus cabelos grudavam, molhados, na pele de outro corpo imerso na água fria, estava quente no começo.
Tragava o último cigarro – ele sempre dizia – esperando que invadisse e aquecesse infinitamente seu corpo cansado.
Respiravam como um.Numa mesma sintonia.
“Era uma vez, uma garota sempre vestida para o inverno, mas o verão foi quente aquele ano.
Numa noite fria, chovia forte a água que caía e se esvaía dentre seus dedos, por todo o seu cabelo e suas bochechas, se acumulavam e embebeciam seus lábios.
Fincara seus pés naquele asfalto frígido.E seus olhos fechados se perdiam e por um momento deixou de carne, e sua alma tornou-se vegetal.Fazia parte da água que caía e do barulho que as gotas faziam nas folhas.Deixou de ser humana, não tinha carne, nem pecado. Trancendeu. Era uma força da natureza
[…]”
 - leu de voz baixa, rasgada, e bêbeda ao pé do ouvido do outro como uma dose letal de qualquer coisa.
Debruçou-se e largou a garrafa de vinho vazia e o livro de páginas amarelas e agora molhadas no chão. Encostou seus lábios nos cabelos dele, que lhe respondia cantando baixo e rouco Wild Charms com os olhos fechados.
Suas peles estavam mais quente que a água.




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